Sete segredos sobre o ensino da ortografia 

Tempo de leitura: 9 minutos

Resolvi compartilhar com vocês sete segredos que aprendi sobre a ortografia durante minha pesquisa de mestrado, que resultou na dissertação intitulada: DESEMPENHO ORTOGRÁFICO DE ESTUDANTES COM TDAH: ESTUDOS SOBRE A TIPOLOGIA DE ERROS DA LÍNGUA PORTUGUESA 

Mas antes de pensar sobre o ensino da ortografia, vamos entender sobre seu conceito e por que é importante ensiná-la? Vivemos imersos em uma sociedade grafocêntrica, em que a aprendizagem da escrita é extremamente significativa nas áreas sociais, culturais e acadêmicas. Tendo em vista que escrever não é um processo que ocorre de forma espontânea, a escrita precisa ser ensinada de maneira sistemática, para que o escrevente se aproprie das convenções do sistema de escrita do qual faz parte, no nosso caso, o alfabético. A ortografia relaciona-se a esse processo pois envolve abstrações entre fonema e grafema, direcionamento e espaçamento da escrita, além da segmentação das palavras e orações. Diferentes autores referem que a invenção da ortografia estruturou a escrita, no sentido de facilitar a comunicação através da normatização para as variações dialetais do idioma. Assim, é necessário (e urgente!) que haja um ensino sistemático, fundamentado e bem planejado da ortografia 

Vamos desvendar alguns segredos sobre o ensino da ortografia?  

  1. O aprendizado tem uma hierarquia. Alguns autores (MOOJEN, 2011; LEMLE, 2010; MORAIS, 2009; CAPELLINI et al., 2012) definem que a aprendizagem da escrita, no sistema de escrita alfabético português, ocorre em um percurso evolutivo, caracterizando a aquisição alfabética e ortográfica da línguaA incorporação da norma ortográfica tende a ser uma consequência para os alunos que já se apropriaram do sistema de escrita alfabético. As dificuldades ortográficas da etapa alfabética são as que dizem respeito às relações regulares/naturais, em que não há fonemas ou grafemas concorrentes (como por exemplo as letras P, B, T, D, F , V) ou há uma regularidade em que explica a escolha de um determinado som ou determinada letra (como por exemplo as posições que o R assume): 

Essa é uma atividade que exploro no Programa Ortografia na Prática, para mais informações, clique aqui 

Desta forma, tem erros que são de origem alfabética, como inversão de letras, trocas de letras surdas por sonoras Um exemplo de erro regular contextual, além do R, que investiremos quando as crianças já tiverem atingido uma hipótese alfabética (tendo por base os níveis psicogenéticos – saiba mais sobre níveis de escrita na live que fiz com a Dra Luciana Piccoli aqui)é o ‘q’ e o ‘u’. Uma dica de atividade que funciona bem, quando as crianças insistem em escrever ‘c’ e ‘u’ em vez de ‘q’ e ‘u’ ou não usam o U em seguida do Q, é a história do ‘q’ medroso. Podemos contar para as crianças que o ‘q’ é uma letra que tem muito medo e ele sempre precisa vir junto do ‘u’. Isso vai ficar gravado, é uma dinâmica específica para que a criança saiba sempre essa diferença  

Para além da ortografia alfabética, temos os exemplos irregulares (casa é com Z ou com S, girafa é com J ou com G, tem H antes de hotel, xícara é com X ou CH). Acho que estas perguntas já te deram uma boa ideia do que são nossos casos irregulares da língua portuguesa. Eles são explicados por uma convenção, por uma história etimológica e, dificilmente, terão explicações ou contextos que explicam seus usos. É esta etapa de aprendizagem e ensino que chamamos de ortográfica. E não tem sentido algum trabalharmos ela na alfabetização. O ensino da ortografia precisa envolver metas específicas que respeitem esta hierarquia, pois recrutam habilidades específicas em cada etapa de aprendizagem.   

 

2. Escrever corretamente no papel não é sinal de alfabetização. Um exemplo clássico disso é a cópia da lousa. Criança que está se alfabetizando, muitas vezes, não escreve errado quando copia do quadro porque ela é copista. Ou seja, a criança só copia mesmo, literalmente. É quase que um desenho das letras, ela ainda não está fazendo uma reflexão grafofonêmica. Mas quando uma criança alfabetizada faz cópia do quadro ela erra porque não é mais copista. Ela lê, guarda o que escreveu na memória e escreve do jeito dela. E nesse momento aparecem as questões que tem dúvida, que ainda precisam ser consolidadasDesta forma, achar que a criança que está escrevendo tudo certo quando copia da lousa está arrasando na alfabetização pode ser perigosoSó poderemos saber se o processo de alfabetização está sendo efetivo por meio de avaliações diagnósticas sistemáticas e intencionais.  

 

3. O preconceito linguístico deve ser eliminado. É errado pensar que uma pessoa é mais inteligente se ela fala exatamente como se escreve ortograficamente. Nem sempre a escrita representa a fala, pois a ortografia e a língua oral são constructos culturais. Na escrita, temos que nos comunicar, e quanto mais ela for correta, melhor será a nossa comunicação. É isso que precisamos falar para os alunos. É uma bela justificativa sobre o aprender a escrever: imagina se cada um, de cada canto do Brasil, for escrever da sua forma, como seria? Muitas atividades sobre variações dialetais podem ser feitas com as crianças. Falei sobre elas neste vídeo aqui, apresentando uma máquina de palavras. Dá uma olhadinha.  

 

4. Escrever recruta inúmeras habilidades e o ensino da ortografia ajuda o aluno a liberar “esforço” mental cognitivo. A produção textual recruta o gerenciamento de um conjunto de tarefas simultaneamente. Quando produz uma narrativa, o escrevente se dedica ao planejamento sequencial, criação das ideias, organização da estrutura do gênero e, também, precisa acionar o processamento fonológico para as abstrações entre fonema e grafema, o que pode incorrer em mais erros ortográficos. De tal modo, a apropriação da ortografia pode qualificar a escrita expressiva dos indivíduos, uma vez que, compreendendo as relações biunívocas entre fonema e grafema e automatizando as regularidades e irregularidades das palavras, a atenção pode ficar mais concentrada no desenvolvimento do conteúdo e na estrutura dos diferentes gêneros textuais (MORAIS, 2009). 

 

5. É preciso saber a atividade correta para cada categoria de erro no ensino da ortografiaPrecisamos ter conhecimentos linguísticos (no final deste artigo, deixarei sugestões de livros que tratam especificamente dos tipos de dificuldades ortográficas da nossa língua). Existem diferentes categorias de erros na Língua Portuguesa (que caracterizam as etapas alfabética e ortográfica)E determinado erro vai conduzir a um ensino específico, recrutando uma habilidade específica. Não adianta fazer sempre as mesmas atividades ou achar que ortografia se resume a memorização. Irregularidade de palavras, por exemplo, os professores podem usar atividades de memória, utilizar o dicionário para ver qual frequência aparece mais no português. Um exemplo é olhar o dicionário com a criança e ver quantas palavras aparecem com ‘x’ e quantas aparecem com ‘ch’ para saber qual das duas têm mais palavras. Se existem questões irregulares que precisam de memorização, o professor tem que conhecer os tipos de memória da criança para poder avançar. E, mais do que isso, ajudar os alunos a perceberem como também aprendem melhor.  

 

6. Leitura não garante ortografia. Um grande mito que eu tinha antes de estudar ortografia era de que, quanto mais leitura, melhor ortografia. Pensar desta forma atrai um risco de achar que a criança vai ler bastante e, consequentemente, vai escrever bem.  No geral, isso não é uma ideia totalmente errada, mas acontece que, quanto mais eu leio, mais eu me torno um leitor competente em relação a compreensão, dando mais atenção ao conteúdo e menos às estruturas ortográficas das palavras (ainda que contribua para minha memória visual). O que estou querendo dizer com isso é que não basta achar que apenas expondo nossos alunos ou filhos a inúmeros livros ou outros portadores de texto, garantiremos uma correta ortografia, que supere as dificuldades ao longo da escolarização. Repito: é preciso ensino sistemático! 

 

7. Jogar limpo com os alunos! Eu sempre digo nas minhas aulas do Curso de Alfabetização na Prática (CAP), que nós, educadores, temos sempre que jogar limpo com os alunos. E fazer isso é dizer que algumas palavras terão o mesmo som, como por exemplo o ‘x’ e o ‘ch’, por exemplo. Quando eu conto a “verdade”, eu levo a criança a recorrer a outras estratégias. Uma boa reflexão é pensar no que você, adulto, faz quando está escrevendo e precisa pensar na palavra quando se escreve. Uma das coisas que você pode pensar é o corretor do computador, por exemplo. É comum usarmos a tecnologia e as crianças também podem recorrer a esse recurso do corretor para elas irem se dando conta de como se escreve, com mais autonomiaOutra dica é provocar nas crianças a substituição da palavra quando elas não souberem como se escreve a primeira. 

 

Para saber mais: 

CAPELLINI, S.A.; ROMERO, A.C.L.; OLIVEIRA, A.B.; SAMPAIO, M.N.; FUSCO N.; CERVERA-MÉRIDA, J.F.; YGYAL-FERNÁNDEZ, A.Desempenho ortográfico de escolares do 2º ao 5º ano do ensino particular. CEFAC. v. mar-abr; v. 14(2), p.254-267, 2012. 

LEMLE, M. Guia teórico do alfabetizador. 17ª ed. São Paulo: ÁTICA, 2010. 

MOOJEN, S.M. A escrita ortográfica na escola e na clínica: teoria, avaliação e tratamento. 3a ed. o Paulo: Casa do Psicólogo, 2015. 

MORAIS A.G. Ortografia: ensinar e aprender. 4ªed. São Paulo: Editora Ática, 2009. 

PEREIRA, Clarissa dos Santos; PISACCO, Nelba Maria Teixeira; CORSO, Luciana Vellinho; DORNELES, Beatriz Vargas. Desempenho ortográfico de estudantes com e sem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rcefac/v20n4/pt_1982-0216-rcefac-20-04-409.pdf ou clicando aqui!

 

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Um Abraço,

Clarissa Pereira

2 Comentários

  1. Avatar

    Muito bom professora Clarissa, com esta leitura do seu artigo, fico mais segura como estou ensinando meus alunos.
    É muito bom quando se ensina com a teoria e a prática.
    Fico muito feliz em levar todos os dias práticas e teórias pra minha sala de aula através de seus ensinamentos com os curso Cap e Map . Ainda não avancei muito nos módulos devido a conecção de transmissão mais fico tentando todos os dias .
    Mais assisto os vídeos que é um aprendizado multivacional muito bom mesmo.
    Obrigada pela oportunidade.

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