Quais os fatores envolvidos na aprendizagem da Matemática?

Tempo de leitura: 6 minutos

Artigo de Yasmini Sperafico

Psicopedagoga clínica e institucional, especialista em Educação Especial e Inclusiva, Licenciada em Matemática e Doutora em Educação. www.psicopedagogiaclinicaeinstitucional.com

 

A aprendizagem de conceitos e o desenvolvimento de habilidades matemáticas é um processo bastante complexo e envolve diversos fatores, como os orgânicos, cognitivos, afetivos e pedagógicos (WEISS, 2012).

Fatores orgânicos: Os fatores orgânicos estão relacionados à estrutura do cérebro e possíveis alterações dessa, como a presença de síndromes e doenças congênitas que vão afetar o desenvolvimento intelectual e, consequentemente, a aprendizagem matemática; e a ocorrência de lesões em áreas que envolvem o processamento da informação numérica em ambos os hemisférios.

Fatores cognitivos: Os fatores cognitivos envolvem o processamento e armazenamento das informações numéricas que necessitam do recrutamento de funções cognitivas, como: a memória, a atenção e as funções executivas. A aprendizagem de forma geral e a aprendizagem da Matemática, em específico, está relacionada ao armazenamento de informações na memória; e esse armazenamento depende de diversos fatores, um importante é a prática (BADDELEY, 2011). Os estudos em Psicologia Cognitiva têm demonstrado que algumas estratégias de ensino e aprendizagem são mais eficazes que outras, por exemplo, a prática distribuída do material a ser aprendido é mais eficiente que a prática concentrada em um único momento, mesmo que prolongada; e o feedback imediato e explícito auxilia a potencializar a aprendizagem (BADDELEY, 2011). Além disso, o armazenamento só é possível quando as informações a serem armazenadas foram foco de atenção. A Neurociência tem evidenciado uma relação entre a emoção e a retenção de informação, sendo que retemos mais material que apresenta carga afetiva; que a motivação auxilia na mobilização da atenção que, por sua vez, é essencial para a aprendizagem, já que retemos apenas informações que foram foco de atenção.

Estudos verificam que o cérebro possui um sistema de recompensas que libera dopamina (neurotransmissor) quando o sujeito é afetado de forma positiva. A dopamina gera bem-estar que, por sua vez, mobiliza a atenção (PANTANO; ZORZI, 2009).

Assim, para a construção sólida dos conhecimentos matemáticos, é necessário um bom funcionamento dessas funções, sendo que prejuízos, mesmo que leves, podem acarretar dificuldades diversas na área da Matemática. A integridade das Funções Executivas (FE) também é importante para que ocorra a aprendizagem. Trata-se de um conjunto de habilidades que permitem que o indivíduo atinja metas, tome decisões, avalie seus comportamentos e resolva problemas (MALLOY-DINIZ et al., 2008). Entre as funções executivas, a memória de trabalho (MT) tem se destacado como uma das funções mais importantes no desenvolvimento matemático. A MT é responsável pelo armazenamento e manipulação de informações por um curto período de tempo. O modelo de MT desenvolvido por Baddeley é composto por quatro componentes: a alça fonológica, responsável por armazenar informação de natureza verbal; o esboço visuoespacial, armazenador de informação visual e espacial; o buffer episódico, responsável por integrar as informações provenientes dos componentes em episódios coerentes, sendo também o componente que possibilita a ligação entre a MT e a memória de longo prazo; e o executivo central, gerenciador do sistema de MT e responsável pelas questões atencionais (BADDELEY, 2011). Diversos estudos têm evidenciado a importância da MT para a aprendizagem matemática (CORSO; DORNELES, 2012; BULL; ESPY, 2006), sendo que crianças que apresentam prejuízos nessa função frequentemente apresentam dificuldades escolares nessa área. Além disso, um conjunto de estudos tem demonstrado a eficácia de intervenções que têm como objetivo melhorar a MT.

 

Fatores afetivos

Quanto aos fatores afetivos, estes estão relacionados a questões emocionais e motivacionais. Quando há motivação para aprender, esse complexo processo é facilitado, dada a relação entre motivação-atenção-aprendizagem, já descrita anteriormente. Entretanto, a falta de motivação, bem como experiências negativas vivenciadas com a Matemática podem ocasionar um bloqueio na construção de novos e mais complexos conceitos na área.

 

Fatores pedagógicos: Por fim, os fatores pedagógicos dizem respeito ao método de ensino e instrução recebida. Existe uma sequência nas aquisições matemáticas. As crianças constroem o conceito de número, para o qual é necessário o domínio dos princípios de contagem (GELMAN; GALLISTEL, 1978), utilizam a contagem como uma ferramenta para a resolução de problemas aritméticos envolvendo raciocínio aditivo e, posteriormente, raciocínio multiplicativo (NUNES et al., 2005) e, ao passo que refinam seus procedimentos e estratégias de contagem, passam a apresentar maior precisão e melhor fluência na resolução de problemas (GEARY, 2006). Essa sequência deve ser respeitada no planejamento de práticas de ensino, bem como o ensino deve focar o desenvolvimento do raciocínio e não antecipar a mecanização de processos sem a compreensão adequada.
Dessa forma, a compreensão de como ocorre a aprendizagem a nível da estrutura do cérebro e seu funcionamento (funções cognitivas envolvidas), bem como a compreensão dos fatores afetivos e pedagógicos envolvidos na aprendizagem matemática, possibilitam a reflexão sobre como ocorre esse processo de construção de conceitos e desenvolvimento de habilidades e, consequentemente, na identificação de dificuldades, auxiliando no desenvolvimento de um trabalho preventivo e terapêutico mais eficaz e focado nos aspectos da aprendizagem a serem otimizados.

 

Referências
BADDELEY, A. Memória. Trad. Cornélia Stolting. Porto Alegre: Artmed, 2011.

BULL, R.; ESPY, A. A work memory, executive functioning and children’s mathematics. In: PICKERING, S. Working memory and education. Elsevier Press, 2006.

CORSO, L. V.; DORNELES, B. V. Qual o Papel que a Memória de Trabalho Exerce na Aprendizagem da Matemática?. Bolema, v. 26, n. 42B, p. 627-647, abr. 201.

GEARY, D. C. Development of mathematical understanding. In: Kuhl D, Siegler R. Cognition, perception and language – Handbook of child psychology. New York: John Wiley & Sons, p. 777-810; 2006.

GELMAN, R.; GALLISTEL, C. R. The child’s understanding of number (1986 edn). Cambridge, MA: Harvard University Press; 1978.

MALLOY-DINIZ, L. F. et al. Neuropsicologia das funções executivas. In: FUENTE, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008, cap. 11, p. 187-206.

NUNES; T.; CAMPOS, T.M.M.; MAGINA, S.; BRYANT, P. Educação Matemática 1: números e operações numéricas. 2ed. São Paulo: Coretz, 2005.

PANTANO, T.; ZORZI, J. (Org). Neurociência aplicada à aprendizagem. São José dos Campos: Pulso, 2009.

WEISS, M. L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: Lamparina, 2012.

1 comentário

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    Tive essa esperiência com os alunos e que os que tinham apoio em cada desenvolveram mais.

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