Provocações sobre Alfabetização e Letramento

Tempo de leitura: 5 minutos

AVISO: leia este texto, que é sério, em tom humorístico.

Alfabetização e Letramento. Dois termos MUITO falados e pouco compreendidos. Em meio a tantas novidades políticas, estamos surfando na onda desses dois conceitos tão discutidos. Até quem não é da área anda opinando, mas será que as pessoas realmente sabem o que é Alfabetização? Sabem o que é Letramento? Será que nós, professores, sabemos? Chegou a hora de colocar os pingos nos “i’s”.

O primeiro passo inteligente para pensarmos nesses dois conceitos é revisitar a história. Nenhuma verdade na Educação é 100% absoluta. Podemos (e devemos), sim, estudar, pesquisar e repensar. Contudo, é sempre de suma importância ir para a raiz de onde e quando os termos foram lançados. O conceito de letramento, por exemplo, surgiu no Brasil na segunda metade dos anos 80, a partir do campo das Ciências Linguísticas e da Educação (PICCOLI; CAMINI, 2012).

O dicionário do CEALE (acesso aqui) também nos ajuda a clarear estas duas ideias. Olha só:
* Alfabetização: aprendizagem do sistema alfabético-ortográfico de escrita.
* Letramento: desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares em que precisamos ou queremos ler ou escrever diferentes gêneros e tipos de textos, em diferentes suportes, para diferentes objetivos, em interação com diferentes interlocutores, para diferentes funções.

“Mas, por outro lado, se a alfabetização é uma parte constituinte da prática da leitura e da escrita, ela tem uma especificidade, que não pode ser desprezada. É a esse desprezo que chamo de “desinventar” a alfabetização. É abandonar, esquecer, desprezar a especificidade do processo de alfabetização.” (TEXTO DE 2003 DA MAGDA SOARES).”

Aqui começa a confusão e o partidarismo (os pró-letramento e os contra-letramento). Em primeiro lugar, é preciso dizer: letramento e o construtivismo não são sinônimos, mas também um não anula o outro. Muita gente do partido contra-letramento critica este conceito porque entendeu que bastava deixar as crianças em contato com os textos que elas, sozinhas, aprenderiam a ler e escrever. Ao mesmo tempo, os pró-letramento, levantavam uma bandeira contra os métodos de alfabetização, demonizando-os. Enquanto os “alfabetizadores” aplicavam cartilhas cheias de metodologias e frases sem sentido, do tipo “a vaca voa”, os “letradores” entregavam textos, livros e receitas, esperando que somente através daquele contato (talvez por osmose?) as crianças seriam alfabetizadas.

Os pró-letramento se deram por conta que só largar uma turma em uma sala cheia de letras não alfabetizava as crianças. Muitos resolveram voltar às cartilhas do “Ivo viu a uva”, recitando todas as famílias silábicas diariamente. Afinal, desta forma viam mais “resultado”. Seria isso um retrocesso?

Sim! Porque usar frases sem sentido, quando você pode usar um material muito mais potente e realista?

Para alfabetizar eu preciso de método?

Sim!! Não basta deixar as crianças em contato com textos. Para alfabetizar eu preciso de um ensino EXPLÍCITO do sistema de escrita alfabético. Por isso, professor, você precisa conhecer esse sistema! Assim você fará escolhas e metodologias mais inteligentes para o contexto da sua turma naquele momento!

Ei, psiu! Será que não existe equilíbrio?

O caminho é ALFABETIZAR EM CONTEXTO DE LETRAMENTO.

Para quem conhece o livro da Magda Soares “Alfabetização, a questão dos métodos” (quem já me segue sabe que eu sou uma admiradora das ideias da Magda), sabe que ela fala sobre as três facetas da alfabetização. Brevemente, as facetas são estas: linguística, interativa e sociocultural. A faceta linguística, engloba o processo de alfabetização, enquanto que a interativa e a sociocultural, englobam o letramento.

Repita o mantra: o caminho é ALFABETIZAR EM CONTEXTO DE LETRAMENTO.

Em palavras muito simplórias: eu preciso ensinar explicitamente para o meu aluno sobre o nosso sistema de escrita e, para isso, eu posso usar textos reais, considerando os interesses e o contexto da minha turma.

Ou, nas palavras da Magda:

“A integração das facetas permite que, ao mesmo tempo que vai aprendendo a codificar e decodificar, a criança vá também aprendendo a compreender e interpretar textos, de início lidos pelo(a) alfabetizador(a), aos poucos lidos por ela mesma, e a produzir textos, de início em escrita inventada, aos poucos em frases, em pequenos textos de diferentes gêneros, ditados para o/a alfabetizador(a), que atua como escriba, ou escritos por ela mesma. Em outras palavras, a criança se insere no mundo da escrita tal como ele é: aprende a ler palavras com base em textos reais que lhe foram lidos, que compreenderam e interpretaram – palavras destacadas desses textos, portanto, contextualizadas, não palavras artificialmente agrupadas em pseudotextos, não mais que pretextos para servir à aprendizagem de relações grafema-fonema; e aprende a escrever palavras produzindo palavras e textos reais – não palavras isoladas, descontextualizadas, ou frases artificiais apenas para prática das relações fonema-grafema; e ao mesmo tempo vai ainda aprendendo a identificar os usos sociais e culturais da leitura e da escrita, vivenciando diferentes eventos de letramento e conhecendo vários tipos e gêneros textuais, vários suportes de escrita: alfabetizar letrando.” (Soares, 2016).

Este é um resumão de uma LIVE na qual conversamos sobre isso. Quer assistir na íntegra? Clique aqui!

Livros citados

– Alfabetização, a questão dos métodos (Magda Soares)

– Letramento (Magda Soares)

– Sistema de escrita alfabética (Artur Gomes de Morais)

– Psicogênese da Língua Escrita (Emília Ferreiro e Ana Teberosky)

– Práticas pedagógicas em Alfabetização: espaço, tempo e corporeidade (Luciana Piccoli e Patrícia Camini)

– Artigo da Magda Soares: https://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/programa_aceleracao_estudos/reivencao_alfabetizacao.pdf

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Um Abraço, 

Professora Clarissa Pereira

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