Incluir e alfabetizar: é possível?

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 Alfabetizar, por si só, já é um grande desafio. Quando falamos em alfabetizar e incluir, a prática se torna ainda mais desafiadora. Em primeiro lugar, quando falamos em inclusão, estamos falando de maneira muito ampla, na medida que incluir abraça inúmeros transtornos e síndromes. Portanto, aqui daremos dicas de práticas pedagógicas bem gerais, pois não conhecemos a sua realidade e o seu aluno. Você, professora, juntamente com a coordenação da sua escola, a família da criança e outros profissionais que, porventura, atendem estes alunos, são as melhores pessoas para pensar em boas estratégias para refletir e pensar sobre este processo inclusivo! 

Vamos, então, às sugestões que servem para toda e qualquer situação de inclusão! 

Sem rótulos: receba a criança e esteja aberta para conhecê-la, antes mesmo que alguém já te passe inúmeras informações sobre ela. Nós costumamos fazer isso em nossos atendimentos individualizados. Antes de conversar com escola e saber toda a situação, conhecemos o aluno, passamos um pouco de tempo com ele e depois desta troca, sim, vamos investigar o seu caso a fundo, buscando fontes e informações. Esse procedimento é bacana porque nos auxilia a enxergar a criança de maneira mais neutra, sem os estereótipos vindos de experiências com outras pessoas. Nem todo autista se comporta do mesmo jeito, nem todo TDAH reage da mesma forma. Isso vale para qualquer diagnóstico. As pessoas são únicas, por mais que tenham sido diagnosticadas por um mesmo CID. Cada um possui suas características, seus gostos e preferências. Portanto, sem rótulos! 

Não desista em função do diagnóstico: abandone o pensamento “ah, já que ele tem este diagnóstico, não há nada que eu possa fazer”. Sim, um trabalho multidisciplinar é MUITO IMPORTANTEmas não ter diagnóstico para os sintomas que estão interferindo na aprendizagem, não pode impedir a nossa intervenção. Nós, professores, SEMPRE podemos fazer alguma coisa pelo nosso aluno, pensando numa perspectiva pedagógica. E este sempre não é sinônimo de milagres. Estamos nos referindo a pequenas mudanças no planejamento que podem fazer toda a diferença. Por mais difícil que seja, não desista de ninguém. Todo mundo merece e tem o DIREITO de aprender!  

Professor não deve trabalhar sozinho: busque por ajuda! Você é uma colaboradora deste processo, e não a única responsável. Você é a profissional que realiza o trabalho que é pedagógico. Devemos envolver coordenação escolar, equipe diretiva, família e especialistas que cuidam desta criança. Se, por algum motivo, seja ele social, financeiro, ou de qualquer outra natureza, este estudante não é atendido por especialistas, procure saber se existe lugares gratuitos na sua cidade. Em Porto Alegre, possuímos hospitais e universidades que auxiliam no diagnóstico e tratamento de transtornos específicos, como o PRODAH (HCPA) ou o ACERTA (PUC/RS), por exemplo. 

Busque informação: depois de conhecer a criança e saber do seu histórico, busque informação! Procure ler sobre o diagnóstico, converse com a família, entre em grupos, procure vídeos no YouTube, faça cursos, assista à palestras. Cerque-se de informação de qualidade e procure as melhores maneiras de ajudar a criança. Desta forma, você se apropria mais do caso, sente-se mais segura e confiante para fazer intervenções pedagógicas, reflete sobre metas e objetivos que devem ser redefinidos e tem a consciência tranquila de que está fazendo aquilo que pode e que está ao seu alcance. No fim deste artigo, deixaremos várias sugestões de vídeos bacanas no nosso YouTube. 

O melhor método para alfabetizar crianças com necessidades especiais: o melhor método é aquele que você, PROFESSORA e também o SEU ALUNO, são os protagonistas! É preciso conhecer esta criança para escolher quais são as atividades mais adequadas que a ajudarão a avançar. Não existe uma receita, um método fechado, que dará melhores resultados. Sinto muito, mas não vamos dizer: “Faça exatamente isso com um disléxico e aquilo com uma criança com Síndrome de Down, e você terá sucesso!”. Não trabalhamos com robôs. Trabalhamos com seres humanos, que tem funcionamentos diferentes. Algumas crianças serão beneficiadas com certas estratégias, enquanto outros alunos, com outras. 

Invista no interesse: uma tática bem eficiente tanto com crianças de desenvolvimento típico (até para nós, adultos) quanto com alunos com diagnósticos fechados, é o trabalho por eixos de interesse. Perceber o interesse da criança, perguntar a ela e observar quais são as suas melhores maneiras de se expor, podem mudar nosso fazer docente. Tente sempre abraçar a curiosidade deles no seu planejamento. Quando falamos em melhores maneiras de se expor, significa que algumas pessoas se expressam melhor através da oralidade, outros através da escrita, por meio do visual, ou por meio do corpo. Observe e potencialize esta forma eficiente de aprendizagem. Esta também é uma dica que serve para refletirmos sobre práticas com crianças não-verbais. 

Faça pequenos ajustes: assim como pensamos em estratégias e atividades diferenciadas para as hipóteses de escrita, pequenas modificações nas atividades podem ajudar a criança que está em processo de inclusão. Por exemplo, em uma compreensão de texto, grifar as informações importantes de cores diferentes, a fim de auxiliar o aluno a encontrar a resposta durante a interpretação, pode ser uma boa alternativa. Recursos visuais são sempre muito bem-vindos! Certa vez, com um aluno com paralisia cerebral que estava sendo alfabetizado, a professora Camila utilizou recursos digitais, já que o menino não possuía uma motricidade fina eficiente para escrever com lápis. O teclado era um bom aliado dele. Além disso, utilizamos letras móveis. Enquanto a turma escrevia textos e montava palavras no papel, nós utilizávamos letras em cima da mesa ou o auxílio de um netbook da própria família. A alfabetização foi concluída com sucesso! 

Alinhe expectativas!  É possível que a sua expectativa não esteja alinhada com a realidade da criança. Na maioria das vezes, não podemos exigir que as crianças que estão em processo de inclusão aprendam as mesmas coisas que as crianças de desenvolvimento típico. É preciso repensar em metas e objetivos para aquele aluno, dependendo do seu diagnóstico: conseguir sentar, escrever seu próprio nome, ler palavras curtas, identificar rimas… Tudo isso podem ser objetivos simples, mas que são grandes conquistas para àqueles que têm dificuldades. Você não é um super heroi. Nem tudo vai sair mil maravilhas. Por isso, é necessário alinhar as nossas expectativas e não se frustrar. 

Cuide da sua saúde emocional: nós também somos professorasNós sabemos. Vivemos o que você vive. Nos sentimos responsáveis pelos avanços dos nossos alunos. Ficamos inquietas, nos torturamos, queremos resultados. CALMA! Respira. Essa angústia pode te deixar doente! Cuide da sua saúde mental. Converse, estude, pense em alternativas, faça o que estiver ao seu alcance e relaxe, está tudo bem! Volte nos itens acima, releia, e acalme o coração! 

Foque na solução: quando a criança não tem diagnóstico, o que nós fazemos? Esperamos a família tomar uma atitude? Ficamos reclamando? Não! Nós focamos na solução! Buscamos alternativas de intervenções pedagógicas, por mais que não saibamos o que o nosso aluno tem. 

Comemore pequenos avanços: elogie! Não foque nas coisas que a criança não consegue fazer, mas reforce os pequenos avançosSe um aluno não consegue copiar a rotina, por exemplo, estabeleça novas metas. Combine que ele copiará duas palavras, ou a letra inicial de cada item. Quando ele terminar, elogie! Elogie uma criança com TDAH que conseguiu sentar-se por um certo tempo combinado. Elogie uma sílaba lida corretamente. Elogie uma quantidade contada certa. Palavras assertivas podem auxiliar o progresso do seu aluno! 

 

Se você tem interesse em saber mais sobre como auxiliar, especificamente, alunos com certos diagnósticos, acesse os links abaixo e assista dicas bem práticas: 

Autismo – vídeo 1 e vídeo 2.

TDAH – playlist com 6 vídeos.

Processamento auditivo – vídeo.

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Abraço, 

Clarissa e Camila 

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