A importância da contagem para o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades matemáticas

Tempo de leitura: 5 minutos

Artigo de Yasmini Sperafico

Psicopedagoga clínica e institucional, especialista em Educação Especial e Inclusiva, Licenciada em Matemática e Doutora em Educação. www.psicopedagogiaclinicaeinstitucional.com

 

A contagem tem sido indicada na literatura nacional e internacional como uma habilidade necessária ao desenvolvimento da capacidade de compreensão numérica (PRAET; DESOETE, 2014). Estudos têm evidenciado que estudantes com maior capacidade de contagem, que aplicam de forma adequada esse recurso, têm melhor desempenho em aritmética e são mais eficientes na realização de cálculos simples e complexos do que estudantes que possuem dificuldades no mecanismo de contagem.

Esses achados indicam que ter a habilidade de contagem desenvolvida implica em estar apto a estabelecer relações de um-para-um entre objetos de uma série e suas representações numéricas (PASSOLUNGHI; VERCELLONI; SCHADEE, 2007). Mas o que é contagem?

Trata-se de uma habilidade que vai muito além de conhecer o nome e a sequência de números. Para dominar a habilidade de contagem, a criança precisa compreender cinco princípios, formulados por Gelman e Gallistel (1978) e discutidos em diversos estudos (GEARY, 1995, NUNES; BRYANT, 1997; GEARY; HAMSON; HOARD, 1999; GEARY; HAMSON; HOARD, 2000; GEARY; HOARD, 2005):

1) correspondência termo a termo (cada objeto deve ser contado somente uma vez, e para cada objeto é fornecido um nome de número);
2) ordem estável (a ordem das palavras de contagem é estável, seguindo a sequência um, dois, três e assim por diante);
3) cardinalidade (o último nome de número indica o total de objetos de um conjunto);
4) abstração (objetos de qualquer natureza podem ser contados juntos); e
5) irrelevância da ordem (a ordem de contagem dos elementos do conjunto não interfere no total).

A maior parte desses princípios são compreendidos pela criança antes de ingressar no Ensino Fundamental, aos 5-6 anos de idade. Apenas os princípios de abstração e irrelevância da ordem são adquiridos após o ingresso na escola, entre o primeiro e o segundo ano escolar. (GEARY, 1995, DORNELES, 2004).

Estudos indicam que crianças de desenvolvimento atípico apresentam atraso na aquisição dos princípios de contagem. Geary (1995) e Geary, Hamson e Hoard (1999; 2000) demonstraram que crianças com dificuldades na matemática ou na matemática e na leitura demoram mais tempo do que crianças sem dificuldades ou apenas com dificuldades na leitura para compreender o princípio de irrelevância da ordem, podendo chegar ao segundo ano sem a compreensão desse princípio.

Assim, atrasos significativos como esse podem indicar dificuldades e, até mesmo, presença de Transtorno da Aprendizagem da Matemática (Discalculia), que deve ser melhor investigado por uma avaliação multidisciplinar (psicopedagógica, neuropsicológica, neurológica).

No entanto, não é necessário aguardar a conclusão da avaliação para iniciar um trabalho pedagógico focado com a criança nas dificuldades identificadas. Para isso, o professor necessita oportunizar o envolvimento em situações de contagem, como:

  • Contagem de materiais para entregar aos colegas, contagem de alunos presentes na turma e contagem de material concreto (blocos lógicos, material dourado ou mesmo sucata). A intervenção do educador é essencial, questionando a criança sobre as ações realizadas (você contou todos elementos? Contou apenas uma vez? E se contássemos em outra ordem, quantos teriam? Qual o total de elementos? Por quê?).

 

  • Outra dica é o uso de jogos para desenvolver os princípios de contagem. Recomendo o Number Race, jogo com base empírica comprovada, que possui versão gratuita, mas exige a disponibilidade de um computador.

 

Jogos ATHURMA

 

  • Se você não tem acesso a esse material, pode desenvolver jogos de trilha (ou outros que apresentem a reta numérica) e jogos que envolvam a contagem de cartas, figuras ou objetos. O mais importante é a postura observadora e questionadora do professor ao mediar a interação da criança com o material ofertado.

 

Referências
DORNELES, B. V. Princípios da contagem numérica: uma construção progressista. In: Seminário de Pesquisa em Educação: Região Sul, 5, 2004, Curitiba. Anais… Curitiba: PUCRS; 2004. 1Cd-Rom.

GEARY, D. C. Mathematical Disabilities: Cognitive, Neuropsychological and Genetic Components. Psychological Bulletin, Berkeley, 14:2, p. 345-362; 1995.

GEARY, D. C.; HAMSOM, C.; HOARD, M. Numerical and Arithmetical Cognition: patterns of functions and deficits in children at risk for a mathematical disability. Journal of Experimental Child Psychology, New York, 74(3), p. 213-239, 1999.

GEARY, D. C.; HAMSOM, C.; HOARD, M. Numerical and Arithmetical Cognition: A longitudinal study of process and concept deficits in children with learning disability. Journal of Experimental Child Psychology, 77, p. 236–263; 2000.

GEARY, D. C.; HOARD, M. K. Learning disabilities in arithmetic and mathematics: Theoretical and empirical perspectives. In J. I. D. Campbell (Ed.). Handbook of Mathematical cognition. New York: Psychology Press, p. 253-267, 2005.

GELMAN, R.; GALLISTEL, C. R. The child’s understanding of number (1986 edn). Cambridge, MA: Harvard University Press; 1978.

NUNES, T.; BRYANT, P. Crianças fazendo matemática. Porto Alegre: Artmed; 1997.

PRAET, M.; DESOETE, A. Enhancing young children’s arithmetic skills through non-intensive, computerised kindergarten interventions: A randomised controlled study. Teaching and Teacher Education, 39, p. 56-65, 2014.

PASSOLUNGHI, C.; VERCELLONI, B.; SCHADEE. H. The precursors of mathematics learning: Working memory, phonological ability and numerical competence. Cognitive Development, p.165-184, 2007.

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