Como formar alunos produtores de textos da Educação Infantil ao 5º ano?

Tempo de leitura: 5 minutos

Antes de pensar em formar alunos produtores de texto, convido você a refletir comigo sobre algumas afirmações que precisamos ABANDONAR, duas crenças que limitam o trabalho docente:

  • COM ALUNOS MENORES: É preciso abandonar a ideia de que só se produz texto aquele que está alfabético/alfabetizado!

O erro aqui é pensar que os alunos só poderão produzir textos quando estiverem dominando as habilidades da faceta linguística. A faceta linguística da alfabetização (SOARES, 2016) envolve (resumidamente) a apropriação do sistema alfabético-ortográfico e das convenções da escrita. Neste pensamento, alunos que ainda não compreendem nem aplicam todo o funcionamento do Sistema de Escrita Alfabética (SEA) não poderiam ser convidados, desafiados a produzirem textos. Recebo muito a pergunta: “Meus alunos não conhecem as letras, como produzir textos?”. Quando pensamos que escrever textos é APENAS juntar letras para formar palavras e frases em bloco de parágrafos, deixamos de lado tantas habilidades que poderiam ser desenvolvidas antes mesmo das habilidades linguísticas, como os sentidos de interação e funcionalidade da escrita.

  • COM ALUNOS MAIORES: É necessário (e urgente!) abandonar a ideia de que a produção de texto envolve apenas uma folha “linda”, uma letra “linda”, um parágrafo “lindo”, uma ortografia “linda”.

O erro aqui é pensar que produção de texto se resume apenas à aspectos gráficos de escrita. Se, por um lado, os alunos já se apropriaram das propriedades do SEA, a limitação vai estar relacionada à organização dos textos: pontuação, organização dos parágrafos, legibilidade da letra e ORTOGRAFIA! Por que letras garrafais em ortografia? Porque me parece que por anos (e ainda hoje) os alunos maiores produzem textos para serem corrigidos ortograficamente. Na minha história como aluna, lembro de produzir textos com ideias criativas, mas voltava uma folha cheia de marcações vermelhas nos erros ortográficos, corrigidas pela professora. Quando recebemos uma folha produzida pelos alunos, precisamos cuidar para não virarmos detetives. Como assim, Clarissa? Qual é o meu papel? É deixar meu aluno escrever tudo errado? Calma aí: preste muita atenção: leia todo esse artigo e compreenda bem o que estou querendo dizer. Vamos lá…

Repita comigo: “Práticas de escrita não podem ser resumidas ao treino motor das letras, formulação de frases e cópia de textos da lousa. Não basta escrever, é necessário PARTICIPAR DE INTERAÇÕES RELEVANTES EM TORNO DA ESCRITA EM PRODUÇÃO.” (PICOLLI, CAMINI, 2012). Neste sentido, podemos pensar que crianças que ainda não estão alfabetizadas já podem produzir textos, sim, no momento em que participam oralmente com sugestões para uma produção coletiva em que a professora é a escriba ou, ainda, podem compreender que quando estamos escrevendo um bilhete para os pais, estamos nos comunicando pela escrita (isto também é participar de uma produção de texto).

Diante das ideias que mencionei que necessitam ser abandonadas (repito, com urgência), pode ficar a dúvida: não é importante ensinar os aspectos linguísticos da nossa língua? Claro que é! Um texto só se qualifica quando é escrito com domínio dos aspectos gráficos, ortográficos, gramaticais… Sendo assim, para formar bons produtores de texto, sugiro um caminho duplo:

Escrita com competência linguística e cognitiva:

De um lado, oportunizaremos, através das nossas estratégias didáticas, que o nosso aluno aprenda os aspectos linguísticos da nossa língua: habilidades de conhecimento das letras e seus traçados, de consciência metalinguística, de decodificação, de ortografia, de gramática, de vocabulário, de pontuação… Concomitantemente, deveremos oportunizar estratégias que ajudem os alunos a recrutarem habilidades cognitivas como atenção, planejamento, revisão, memória de trabalho…

A outra ponta do caminho envolverá os aspectos sociais em torno dos textos, contemplando as facetas que dizem respeito ao letramento: eventos sociais e culturais que envolvem a escrita e habilidades de compreensão e produção de textos (SOARES, 2016). Para que isso aconteça, podemos considerar as seguintes questões sempre que incentivarmos nossos alunos a escreverem qualquer tipo de gênero textual:

Escrever por quê? – MOTIVOS –

Escrever para quê? – INTENCIONALIDADE –

Escrever para quem? – INTERLOCUTORES –

Onde escrevo? – CONTEXTO/ SUPORTE –

Como escrevo? FORMA/GÊNERO –

Este caminho entre aspectos linguísticos, cognitivos e sociais em torno da produção de texto são intimamente relacionados. Pense no esforço mental de uma criança que ainda não está alfabetizada juntando letras para produzir um texto. Quanto mais ela dominar as relações fonografêmicas e convencionais, mais vai sobrar espaço cognitivo para planejar e revisar seus escritos (competência cognitiva) e para escrever um texto com sentido e para ser lido por outras pessoas (competência social).

Em suma, é essencial compreendermos que nossos alunos não precisam produzir textos apenas após a alfabetização. Antes, durante e depois dessa consolidação linguística, eles podem (e devem) compreender os usos e significados dos textos. E, aí… o que você já faz e o que você precisa abandonar? Conta para mim nos comentários

E se você quiser conhecer ideias práticas sobre cada umas destas competências mencionadas, assista aqui à aula que fiz. Esse texto foi apenas um resumo de tudo que foi abordado:

 

REFERÊNCIAS:

Práticas pedagógicas em Alfabetização: espaço, tempo e corporeidade (Luciana Piccoli e Patrícia Camini)

Alfabetização: a questão dos métodos (Magda Soares)

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