Como ensinar o alfabeto?

Tempo de leitura: 7 minutos

Essa é uma pergunta bem recorrente. Professoras de todo o Brasil sempre me fazem esta indagação. E hoje, a fim de esclarecer este dilema, vamos conversar sobre os top 6 questionamentos que chegam até mim. 

Vamos nessa? 

  1. Tem que ensinar letra por letra? 

Sim e não! 

SIM, porque é importante ensinar o alfabeto, dando um repertório finito de letras para que as crianças tenham como referência e possam conhecer a pauta sonora de cada uma, impedindo, por exemplo, que as crianças utilizem sempre as letras do seu nome para escrever outras palavras. Assim, é bacana propor estratégias didáticas contemplando o estudo das letras individualmente. Cuidado: Não estou falando em segmentação de letras por seus sons, mas sim, na perspectiva de reconhecimento das letras, repertório de palavras que iniciam ou terminam com a letra, etc. Tem vários livros infantis que podem ajudar neste trabalho. 

NÃO, quando nos referimos a metodologiaporque não podemos pensar que vamos escolher certas letras e trabalhar somente com elas, privando as crianças de ter contato com as outras, restringindo-se a um método que inicia somente pela letra para, então, partir para sílabas, frases ou textos.  

2. Existe uma sequência correta de letras para ser apresentada? 

Ensinamos primeiro quais letras? As vogais antes das consoantes?  

Na alfabetização inicial, é interessante procurar utilizar um repertório conhecido, como o nome próprio. Partir dos nomes nas primeiras semanas é algo contextualizado e prazeroso para a turma. Além de gerar uma estabilidade de repertório de palavras entre todos da turma, o que ocasiona possíveis comparações com palavras de outro campo semântico (Ex: “ABACAXI começa igual a Artur, profe”). Nesse sentido, é bacana trabalhar com uma lista de referência (banco de palavras) que pode ficar exposta na sala de aula e que as crianças possam refletir sobre os nomes, além da chamada inicial, com boas perguntas de intervenção.  

Além disso, para a apropriação da relação grafofonêmica, pela minha experiência e das minhas alunas do CAP, dar ênfase para as vogais ajuda bastante. Por quê? Porque elas apresentam relações sonoras fáceis de percepção. Isso não significa fazer um trabalho exclusivo com as vogais, desconsiderando todas as outras propriedades que devem ser desenvolvidas: consciência fonológica, uso de todas as letras em textos (mesmo que a professora seja a escriba), combinação de outras letras ao apresentar atividades. Não é para forçar a barra e trabalhar só com ABACADABRA para trabalhar a vogal A. Ela é uma letra que pode ser combinada em outras situações, como em Clarissa, por exemplo. 

 3. Como apresentar o alfabeto? 

Podemos utilizar diversos recursos, como músicas, livros de literatura, janelinha (preguicinha),  

 

bingo do alfabeto, história do alfabeto, exposição de letras em sala de aula (na altura dos alunos, de preferência), letras feitas com o nosso corpo, cartazes feitos pelos próprios alunos, alfabetos de bolso, dicionários infantis…  

Importante: três dicas são preciosas. Cuide para utilizar palavras do cotidiano das crianças, pensando sempre no contexto e na realidade da turma. Utilize como recurso fotos das próprias crianças para ilustrar o alfabeto da sala. Renove os cartazes durante o ano, troque, não deixe sempre as mesmas ilustrações, objetos, imagens. Aqui nesta publicação do Instagram dei mais dicas sobre isso. 

4. Quais traçados eu devo ensinar? 

Por questões de percepção visual, a letra bastão (maiúscula, caixa alta), ajuda a criança a construir as propriedades do SEA – Sistema de Escrita Alfabética, identificando que cada letra é uma. Contudo, não podemos privar as crianças de ter contato com outros tipos de letra. É interessante que, mesmo antes de iniciar o trabalho de ensino da letra script ou cursiva, as crianças possam ter contato com elas através de livros e cartazes. Depois de consolidar a leitura e a escrita, podemos partir para um ensino mais sistemático desses outros traçados. 

Importante: mesmo trabalhando com a letra bastão, devemos enfatizar o uso da letra maiúscula no início dos nomes próprios ou frases e parágrafos. Isso pode ser feito colorindo a primeira letra, por exemplo. 

5. Qual a relação entre os traçados, os sons e os nomes das letras? 

Não podemos reduzir ensino do Sistema de Escrita Alfabético (SEA) à consciência fonêmica (habilidade de reconhecimento e manipulação dos fonemas – as menores unidades sonoras da língua)Dentro da consciência fonológica, este é o nível mais complexo. De acordo com diversos autores, como Magda Soares (2006) e Artur Gomes de Morais (2019), o treino de consciência fonêmica (na perspectiva de segmentação de fonemas não pronunciáveis) não é necessário para um bom desempenho em habilidades de consciência fonológica, que também envolve rimas e aliterações. A consciência fonêmica pode e deve ser trabalhada a partir da comparação entre fonemas (faca/vaca, por exemplo), através da substituição, acréscimo ou retirada de fonemas das palavras (CASA – ASA, GLARISSA, FLARISSA), etc. No meu CURSO ONLINE DE ALFABETIZAÇÃO NA PRÁTICA (CAP) tem um módulo inteirinho sobre Consciência Metalinguística e minhas alunas já compreendem que é possível trabalhar com consciência fonêmica sem restringi-la ao método fônico). 

Para Magda Soares (2016), a relação entre traçado (A), fonema /a/ e nome da letra “A” precisa ser considerada no ensino inicial da leitura e da escrita porque concretiza algo que é tão abstrato (conceito da pauta sonora da língua que precisa ser construído pelo aluno). A autora, portanto, apresenta o conceito de consciência grafofonêmica e fonografêmica (Habilidade de relacionar letras ou grafemas da palavra escrita com os sons ou fonemas detectados na palavra falada).   

Em síntese, os nomes das letras são importantes, como mostramos no início deste artigo (imagina se não soubermos soletrar palavras?) e a relação grafofonêmica também. Artur Gomes de Morais, em 2019, concedeu uma entrevista para o nosso blog, explorando mais sobre todos estes conceitos. Clique aqui para ler.  

6. Por que ensinar o alfabeto? 

Precisamos ir além de apenas pensar no alfabeto como um repertório de letras que usamos para escrever. Alfabetizadores precisam conhecer a língua portuguesa e as características do nosso Sistema de Escrita Alfabética. Segundo Artur Gomes de Morais, no seu livro “Sistema de Escrita Alfabética” (2012)para se tornar alfabetizado, o aluno precisa construir a consciência sobre dez propriedades do SEA. São elas: 

1 – Escreve-se com letras que não podem ser inventadas; 

2 – As letras têm formatos fixos e pequenas variações produzem mudanças na sua identidade; 

3 – A ordem das letras dentro das palavras não pode ser mudada; 

4 – As letras podem se repetir dentro das palavras; 

5 – Nem todas as letras podem ocupar qualquer espaço dentro das palavras; 

6 – As letras notam pautas sonoras; 

7 – As letras notam pautas sonoras menores que sílabas; 

8 – As letras têm valores sonoros fixos, apesar de muitas terem mais de um valor sonoro; 

9 – Além das letras, usam-se também marcas como acentos, que mudam a tonicidade; 

10 – As sílabas variam conforme a posição das letras (consoante + vogal, consoante + consoante + vogal…). 

Nesse sentido, a grande pergunta que fica é: as minhas práticas reconhecem essas propriedades na hora de ensinar? Eu tenho essa intencionalidade quando crio atividades de alfabetização? 

Se quiser assistir à LIVE onde abordamos este assunto, é só clicar aqui!

Para saber mais sobre o CAP, Curso de Alfabetização na Prática, clique aqui!

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Abraços, 

Clarissa Pereira e Camila Oliveira 

6 Comentários

  1. Avatar

    DICAS MARAVILHOSAS ,QUE O PROFESSOR PODE ESTÁ ADAPTANDO DE ACORDO AO A ANO/SÉRIE QUE IRA LECIONAR.

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  2. Avatar

    Meu Deus. Descobrir você através de uma postagem no face. Estou amando o conteúdo desse site.

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