3 mitos sobre letramento e construtivismo

Tempo de leitura: 10 minutos

Manga com leite faz mal. Mito ou verdade? Se for uma verdade, você já provou esta combinação e atestou que ela é verdadeira? Ou você acha que é mentira, mas prefere, mesmo assim, não comer?

Mitos são todas as narrativas que ouvimos por aí e que foram tão afirmadas que podem ganhar um tom de verdade. Pode ser que você nem se questione. Hoje, queremos desmistificar algumas destas afirmações em relação ao letramento e ao construtivismo, fazendo com que você reflita e, a partir de uma análise histórica e científica, possamos chegar a novas conclusões.

Para conversar sobre estes 3 mitos, Raquel Rabelo (pedagoga, psicopedagoga, formadora de alfabetizadores e mestranda em Ciências da Educação) foi convidada e batemos um papo ao vivo, no meu canal do Youtube. Assista aqui a reprise. Reproduzimos trechos da conversa neste artigo.

Vamos aos 3 mitos!

1 – Letramento e construtivismo são métodos de alfabetização.

Este é clássico! É um mito que vem do senso comum (aquela famosa reprodução, sem questionamento e reflexão). Pessoas que afirmam que o letramento e o construtivismo são métodos para alfabetizar não conhecem a teoria, não sabem de onde surgiram estes conceitos e, possivelmente, fazem uma prática pela prática, sem este exercício de voltar para os fundamentos. É imprescindível, então, uma retomada destes princípios.

Em relação ao construtivismo, precisamos salientar que se trata de uma teoria científica. Quando Jean Piaget desenvolveu esta teoria, ele não estava pensando em salas de aula e, se quer, em educação. Este famoso biólogo suíço criou uma teoria científica voltada aos campos das ciências da saúde, mas que foi apropriada por educadores e difundida pelas faculdades de pedagogia de todo mundo. Atualmente, vemos, inclusive, escolas vendendo os seus achados como “pedagogia construtivista”. Este cunho comercial pode ter fortalecido a ideia de que construtivismo é um método.

Mas, então, o que é o construtivismo? É uma teoria que afirma que a apropriação de conhecimento vem a partir de um sujeito ativo no seu processo de aprendizagem e sua interação com o meio.

Existem diversas correntes sobre a égide da estrutura construtivista. Autores como Kenneth Gergen afirmam que construtivismo é um termo que indica a construção sob processo de uma formação mental, ou seja, a elaboração de conceitos, interpretações e análises por um sujeito ativo e construtor de suas cognições.

Neste caminho, uma pesquisa publicada no livro Psicogênese da Língua Escrita (FERREIRO; TEBEROSKY, 1974) se valeu dos estudos de Jean Piaget para embasar a sua temática sobre como as crianças aprendiam a ler e a escrever. Veja bem: as autoras Emília Ferreiro e Ana Teberosky estavam fazendo uma pesquisa e não uma teoria, tampouco um método didático. Nesta investigação, que possuía conceitos de acomodação e desequilíbrio envolvidos (do epistemólogo suíço), as autoras encontraram hipóteses que a criança faz sobre a língua, bem como suas reflexões acerca da escrita, classificando, então, os famosos níveis de 1 a 5, que foram popularmente nomeados como pré-silábicos, silábicos e alfabéticos. Para saber mais sobre cada um dos níveis, assista à esta aula gratuita.

Conhecer sobre como a criança aprende/evolui é fundamental para formularmos nossas estratégias didáticas e fugir das práticas de memorização que citaremos a seguir. Quando sei como e porque o meu aluno escreve escolhendo determinadas letras, terei condições de propor boas estratégias de intervenção.

Esclarecendo isso, vamos à segunda questão deste mito: letramento é um método?

Por muito tempo (muito mesmo, desde o Império), a educação brasileira esteve (será que ainda está!?) pautada em cartilhas com pseudotextos (do tipo “Ivo viu a uva”) e famílias silábicas. “Alfabetizado” era o sujeito que conseguia escrever seu próprio nome. Formávamos copistas e não crianças que refletiam sobre o sistema de escrita alfabético e suas propriedades, sem senso crítico e sem saber a funcionalidade da escrita. O saber ler e escrever era para a escola, mas não para o mundo, para o trabalho, para exercer a cidadania…

A partir dos estudos sobre alfabetização, de uma reflexão sobre estas cartilhas, começaram-se pesquisas em direção ao letramento. Estes dois grandes conceitos (construtivismo e letramento) não são sinônimos, mas processos distintos que se retroalimentam. Por um lado, os estudos psicogenéticos da escrita nos puseram a pensar que a escrita não poderia mais ser vista como mera decifração de um código, como uma cópia, uma memorização. Por outro, os estudos de letramento colocaram em evidência a importância de usar textos reais para dar sentido à funcionalidade da escrita: por que escrevo? Para quem escrevo? Quem é o meu interlocutor? Com isso, a compreensão leitora, a produção de textos, os sentidos das práticas de leitura também deveriam se tornar prioridade nas pesquisas e nas didáticas.

E por onde fica a ALFABETIZAÇÃO diante disso? Abandona-se o ensino da leitura e da escrita, o juntar as letras, o reconhecimento dos traçados, as propriedades do alfabeto? JAMAIS!

Alfabetização é o processo de aprendizagem inicial da leitura e da escrita, o “processo de aprendizagem do sistema alfabético e de suas convenções, ou seja, a aprendizagem de um sistema notacional que representa, por grafemas, os fonemas da fala” (GLOSSÁRIO DO CEALE). Já o letramento está relacionado ao “desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares em que precisamos ou queremos ler ou escrever diferentes gêneros e tipos de textos, em diferentes suportes, para diferentes objetivos, em interação com diferentes interlocutores, para diferentes funções” (GLOSSÁRIO DO CEALE).

Métodos de alfabetização são, segundo Soares (2016), um “[…] um conjunto de procedimentos que, fundamentados em teorias e princípios, orientem a aprendizagem inicial da leitura e da escrita, que é o que comumente se denomina alfabetização” (SOARES, 2016 p.16). Nesta perspectiva, entendemos que os conceitos de construtivismo, letramento e alfabetização podem orientar nossas estratégias didáticas, mas não são métodos de alfabetização. Podemos alfabetizar em contexto de letramento, apoiando-se em uma prática onde o aluno é protagonista deste processo de aprendizagem, considerando sua evolução do desenvolvimento, incluindo suas hipóteses em relação à escrita.

 

2 – As crianças brasileiras não se alfabetizam hoje por culpa do letramento e do construtivismo.

Não é de hoje que o Brasil convive com o fracasso escolar. Limitar o fracasso da alfabetização em razão do método é reducionismo. Para fazer esta análise, é preciso considerar as questões históricas, sociais e políticas (não partidárias!) que estão envolvidas.

Dizer que o letramento e o construtivismo são os culpados pela não alfabetização das crianças e dizer que uma volta às cartilhas resolveria este problema pode parecer muito simplista. Quem disse que as professoras brasileiras estão utilizando o construtivismo e o letramento? Que pesquisas mostram isso? O que nós observamos, na prática, são professoras que nos mandam mensagens TODAS AS SEMANAS com fotos de famílias silábicas nas paredes e vídeos das crianças cantarolando as sílabas. As cartilhas não estão fisicamente nas mãos das crianças, mas são, muitas vezes, reproduzidas pelas professoras. Você pode pensar: “ah, mas elas funcionavam!”. Ninguém disse que não funcionava. A questão é: que tipo de aprendizagem era/é esta? Que tipo de leitor e escritor estavam/estão sendo formados?

Artur Gomes de Morais, em algumas pesquisas retratadas no livro “Consciência fonológica na Educação Infantil e no Ciclo de Alfabetização), investigou professoras que se valiam de métodos sintéticos e professoras mais inovadoras (que utilizavam textos, recursos, pensavam na realidade dos alunos e trabalhavam com as habilidades de consciência fonológica). Esta pesquisa revelou que, em provas de avaliação, as crianças que estavam nas turmas de professoras que trabalhavam com métodos fônicos, por exemplo, possuíam menos habilidades de consciência fonológica do que as crianças que eram alfabetizadas em contexto de letramento. Parece contraditório, não?! Mas é o que a ciência comprova!

A sociedade evolui, as teorias evoluem, não podemos retroceder! Há um distanciamento entre as políticas públicas e a realidade, entre o que está no papel e o que realmente acontece nas salas de aula.

O fracasso da alfabetização no Brasil não é o construtivismo ou o letramento, mas todo um contexto social, de evasão, reprovação, formação e desvalorização de professores, dentre tantos outros aspectos que poderíamos passar a noite listando…

 

3 – Letramento, Paulo Freire e construtivismo são a mesma coisa.

Método Paulo Freire, já ouviu falar? Paulo Freire teve uma participação grande na educação do Brasil, estimulando um aprender que incentivasse o senso crítico e reflexivo. Outra marca forte da sua perspectiva educacional era partir da realidade do aluno para o mundo e não para ficar estagnado naquele cenário. Neste aspecto, assemelha-se ao letramento, pensando em um indivíduo que sabe inserir-se em situações de leitura e escrita que envolvem a sua realidade.

O legado do Paulo Freire se aproxima do construtivismo na medida em que o sujeito se relaciona com o objeto de conhecimento e se aproxima do letramento, na medida em que busca as práticas sociais da escrita e da leitura.

Mesmo que haja semelhanças, letramento, construtivismo e Paulo Freire são conceitos diferentes, que foram estudados em épocas diferentes, por pessoas diferentes e que possuem diferentes posições dentro do processo de ensinar e aprender. Reduzir tudo à mesma coisa, culpando-os pelo fracasso da alfabetização no Brasil, parece-nos algo completamente reducionista, sem embasamento profundo nos estudos da história dos métodos de alfabetização no país.

 

Referências:

FERREIRO, M., TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1974.

MORAIS, Artur Gomes de. Consciência fonológica na educação infantil e no ciclo de
alfabetização. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

Glossário CEALE – Link aqui.

SOARES, M. B. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016.

 

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Abraço,

Clarissa, Raquel e Camila

2 Comentários

  1. Avatar

    Tenho acompanhado seu trabalho é excelente, nos proporciona muito aprendizado e muitas dicas só a agradecer. Você é maravilhosa!

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